minha existência é perpassada por certas exigências
e não se ajusta, não se emenda
(Luana Claro)

Há textos que nascem destinados ao fracasso. Talvez, esse seja um deles. Não por incompetência da autora, que passou agosto convivendo com a imponderável tarefa de escrever sobre a produção literária de mulheres lésbicas, mas pelo envolvimento com a temática tratada. Certa feita, Barthes escreveu que “malogramos sempre ao falar daquilo que amamos”.

Há tantos caminhos, quanto modos de percorrer a matéria vertente, mas – quase sempre – os caminhos e os modos que seguem os rastros do afeto são os mais difíceis de trilhar. Embora Barthes tenha razão, passeando pelos versos de uma mulher, descobri que os malogros são responsáveis pelos mais belos poemas:

Diadorim
amo a forma como seus cílios escuros se
mexem quando descortinam seus olhos
curiosos que vagam – de certa forma
atentamente – enquanto você tenta
encontrar as palavras certas. elas não
existem em verdade
eu já procurei em todos os lugares que
você pode imaginar
amo te olhar enquanto você olha as
coisas pensando em não sei mais o que e
por fim você diz e diz e diz e tudo soa
como poesia pra mim
(CLARO, 2017, p.14)

Tive a sorte de conhecer a poeta que escreveu os versos pelos quais minhas retinas não cansam de passear de tempos em tempos. Nunca se sabe o momento exato em que uma amizade começa, mas – bem se sabe – o afeto entre mulheres altera a ordem dos planetas. De Luana, guardo um rabo de cometa, uma metáfora de possibilidade, a certeza de que a produção poética de mulheres traz consigo a radicalidade de outro universo.

Em Diadorim, poema que dá nome ao livro da autora, os versos se valem da ambiguidade e da polissemia da linguagem poética para expressar as sutilezas da lesbiandade, que está presente de maneira metafórica. Diadorim dá nome a uma das personagens mais famosas da literatura brasileira, o jagunço por quem Riobaldo se apaixona, em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Diadorim aparece como figura metonímica que expressa uma subjetividade à margem. O afeto, na poesia de Luana, é trespassado pelo imponderável, transgredindo interditos.

Seus versos parecem confirmar – por meio de força imagética – o que Adrienne Rich, teórica feminista e também poeta lésbica, escreveu: as conexões entre mulheres são as mais temíveis, as mais problemáticas e as forças mais potencialmente transformadoras no planeta.

Diadorim é sua estreia na poesia. Foi escrito num curto espaço de tempo, mas carrega experiências que atravessam os séculos e perpassam a existência de uma multiplicidade de mulheres; enuncia, sobretudo, a necessidade de inventar um mundo com outra paleta de cores; a nossa:

Caroline,
há tantas estrelas no céu
quanto mulheres
se sentindo insuficientes

caminho pensando
que injustiça
enquanto chuto um
pedaço de planeta
(CLARO,2017,p.44)

Que não se apressem – entretanto – os afoitos. Classificar a produção poética de mulheres lésbicas sob alcunhas identitárias e simplificadoras, que pouco ou nada discorrem acerca da complexidade estilística de suas obras, é apagar sutilezas, aprisionar poetas. Os versos de Luana não renunciam à dimensão política, mas não se submetem à comunicação gasta, à mensagem pronta. Diadorim, como toda poesia de qualidade, traz a linguagem à contrapelo. A poesia não facilita.

Seus poemas expressam a urgência de reinventar a existência sob uma outra ordem. O sujeito poético que perpassa seus versos se sabe duplamente à deriva. A condição de marginalidade social e histórica em que se encontra toma forma por meio dos versos quebrados, do ritmo dissonante, das figuras imagéticas que expressam uma existência à mercê do impossível:

estou novamente à deriva
à mercê da instabilidade
marinha que me assola estou

sozinha

(só deus sabe se chegarei à ilha das
crianças mas ele não fala muito comigo)
(CLARO, 2017,p.37)

O lugar da poesia e dos afetos, na produção de Luana Claro, aproxima-se um pouco da imagem esfumaçada que Riobaldo tinha de Diadorim: “Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina.”

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