“As horas em que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários”
Carolina Maria de Jesus

 cmj

Em Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus compara a favela do Canindé, local onde habitou em um barracão com os filhos, a um “quarto de despejo”, uma vez que a favela seria o lugar onde a sociedade deposita tudo aquilo que não teria utilidade ou valor. Partindo da metáfora pungente de Carolina, pode-se pensar em que medida a concepção canônica de arte também cria – ao longo do tempo – quartos de despejo simbólicos onde deposita a produção cultural que tenta sequestrar ou esquecer.

Nesse sentido, o processo de embranquecimento de Machado de Assis, o apagamento histórico de Maria Firmina dos Reis e a negação do caráter literário de Carolina Maria de Jesus surgem como reflexo de um projeto político que objetiva apagar a memória histórica da população negra e negar sua contribuição na constituição da literatura brasileira.

Ainda que figure como campo polêmico de disputa no que diz respeito a sua definição, faz-se urgente reivindicar a literatura negra como vertente literária que compõe a literatura brasileira, tendo um corpus literário específico que tem resistido ao longo do tempo para despontar, agora, de modo mais consolidado.

Sem dúvidas, Carolina Maria de Jesus foi uma das precursoras da literatura afro-brasileira de que Conceição Evaristo fala:

Há muito, um grupo representativo de escritores(as) afro-brasileiros(as), assim como algumas vozes críticas acadêmicas, vêm afirmando a existência de um corpus literário específico na Literatura Brasileira. Esse corpus se constituiria como uma produção escrita marcada por uma subjetividade construída, experimentada, vivenciada a partir da condição de homens negros e de mulheres negras na sociedade brasileira. Contudo, há estudiosos, leitores e mesmo escritores afrodescendentes que negam a existência de uma literatura afro-brasileira. Apegam-se à defesa de que a arte é universal, e mais do que isso, não consideram que a experiência das pessoas negras ou afro-descendentes possa instituir um modo próprio de produzir e de conceber um texto literário, com todas as suas implicações estéticas e ideológicas. (…) As discussões em torno do tema têm me envolvido como escritora e como pesquisadora. E a partir do exercício de pensar a minha própria escrita, venho afirmando não só a existência de uma literatura afro-brasileira, mas também a presença de uma vertente negra feminina. (EVARISTO, 2009, p.17)

O não reconhecimento da existência da literatura afro-brasileira, escondida sob o argumento da suposta universalidade, não se trata de mera divergência teórica. A concepção que nega a existência de um corpus literário específico que expressa a subjetividade negra, vinculada a um passado e uma memória coletiva, não é ingênua. Tal visão corrobora o discurso hegemônico e imperialista ocidental que funciona para ocultar a brutalidade de processos históricos, como a instituição da escravidão. Faz-se necessário lembrar que – em não se tratando apenas de herança – o capitalismo se vale do racismo e da misoginia a fim de embasar a rentável exploração de corpos, sendo as mulheres negras as mais afetadas.

Sendo assim, é curioso o não reconhecimento da literatura afro-brasileira sob o argumento de uma suposta universalidade que, em verdade, serve apenas a quem mais se beneficia desse sistema. A literatura afro-brasileira produzida por mulheres surge, nesse contexto, como um ato político que questiona, em última instância, o sistema social a que estamos submetidos.

Uma das inúmeras maneiras de perpetuar a dominação é impedir que o sujeito subjugado tenha acesso aos instrumentos de poder simbólico, como a literatura. Em Carolina Maria de Jesus, encontramos diversas passagens em que a autora desafia o “quarto de despejo” que, junto a sua literatura, a sociedade tenta confina-la. Sem dúvidas, a autora subverte os espaços sociais a ela impostos e – num ato de resistência – produz literatura.

Apesar disso, a figura de Carolina de Jesus nunca deixou de ser alvo de enquadramentos racistas e preconceituosos. É com assombro que se tornou de conhecimento público uma passagem da biografia de Clarice Lispector, escrita por Benjamin Moser, em que o autor descreve Carolina – figurando em uma foto ao lado de Clarice – como a empregada doméstica da escritora branca:

Numa foto, ela aparece em pé, ao lado de Carolina Maria de Jesus, negra que escreveu um angustiante livro de memórias da pobreza brasileira, Quarto de despejo, uma das revelações literárias de 1960. Ao lado da proverbialmente linda Clarice, com a roupa sob medida e os grandes óculos escuros que a faziam parecer uma estrela de cinema, Carolina parece tensa e fora do lugar, como se alguém tivesse arrastado a empregada doméstica de Clarice para dentro do quadro. (MOSER, 2009, p.25)

Soma-se a isso, o episódio não tão longínquo ocorrido na Academia Brasileira de Letras, em 17 de abril de 2017, ocasião em que o professor Ivan Cavalcanti Proença – convidado para evento em homenagem à escritora – afirmou que a produção literária da autora não pode ser considerada literatura. Segundo Cavalcanti, a obra de Carolina seria “o relato espontâneo de alguém que não conseguia existir por completo”.

Esses acontecimentos – longe de representarem exceções – revelam o projeto político que se oculta sob a alcunha de “opinião”, evidenciando que o quarto de despejo de que falava Carolina não é apenas geográfico, mas também simbólico. Em relação ao discurso proferido por Ivan Cavalcanti, cabe questionar a concepção que embasa o discurso que desconsidera o caráter literário de Quarto de Despejo e legitima que – apesar dos inúmeros estudos acadêmicos e do reconhecimento internacional – Carolina Maria de Jesus continue sem figurar – salvo exceções – na ementa das disciplinas vinculadas à graduação de Letras de universidades como a USP.

Faz-se necessário problematizar a qualidade do literário, na medida em que apenas uma determinada concepção estética de literatura tem sido reconhecida como legítima ou colocada como paradigma a ser seguido, corroborando com o processo de deslegitimação histórica das manifestações culturais que revisam o passado colonial e refletem criticamente acerca da condição de dependência política e econômica das nações.

A literatura como ideal

Na obra de Carolina, há diversos momentos em que se questiona os quartos de despejo simbólicos. Em diversas passagens e poemas, a representação da escrita surge ao lado da reflexão acerca do lugar que o sujeito ocupa no mundo. No poema abaixo, é possível observar como o fazer literário é perpassado pela subjetividade feminina e negra:

Muitas fugiam ao me ver
Pensando que eu não percebia
Outras pediam pra ler
Os versos que eu escrevia

Era papel que eu catava
Para custear o meu viver
E no lixo eu encontrava livros para ler
Quantas coisas eu quis fazer
Fui tolhida pelo preconceito
Se eu extinguir quero renascer
Num país que predomina o preto

Adeus! Adeus, eu vou morrer!
E deixo esses versos ao meu país
Se é que temos o direito de renascer
Quero um lugar, onde o preto é feliz.

Carolina Maria de Jesus. Antologia pessoal.

 

Como no poema, é possível entrever, em Quarto de despejo, uma narrativa que – para além de denunciar a brutalidade do sistema – compreende o ato literário enquanto ação capaz de ressignificar a existência. Nesse sentido, a literatura afro-brasileira feminina delinearia uma estética da escrevivência, termo cunhado por Conceição Evaristo para definir sua produção literária:

Invento? Sim, invento, sem o menor pudor. Então, as histórias não são inventadas? Mesmo as reais, quando são contadas. Desafio alguém a relatar fielmente algo que aconteceu. Entre o acontecimento e a narração do fato, alguma coisa se perde e por isso se acrescenta. O real vivido fica comprometido. E, quando se escreve, o comprometimento (ou o não comprometimento) entre o vivido e o escrito aprofunda mais o fosso. Entretanto, afirmo que, ao registrar estas histórias, continuo no premeditado ato de traçar uma escrevivência. (EVARISTO, 2011, p. 9).

Nesse sentido, o texto literário de Carolina Maria de Jesus revela uma narrativa cortante em que – a despeito da violência e da fome – o sujeito enunciativo resiste e existe em toda sua complexidade e sutileza subjetiva.

A recusa em assumir o caráter literário de Carolina Maria de Jesus e a resistência acadêmica em admitir a presença de uma literatura afro-brasileira mostram – em verdade –o projeto político de dominação simbólica que reside no discurso hegemônico. Apesar da condição desumana a que é submetida, a existência completa e profunda de Carolina se inscreve em sua literatura.

Em diversas passagens, fica explícito o exercício de escrita como ação consciente que é levada ao cabo a despeito da condição limite. O sujeito enunciador de Quarto de despejo não escreve – como quer Ivan Cavalcanti – porque não existe de todo, mas justamente porque existe em toda sua complexidade. Em Quarto de despejo, o sujeito enunciador se recusa, como querem alguns, a levar uma existência reduzida ao ato de sobreviver; cultivando ideais que despontam em muitos momentos:

O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. Mas eu não quero porque já estou na maturidade. E, depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para escrever. E que deita com lápis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal. (JESUS, 1960, p. 44)

A passagem acima reflete a compreensão crítica da autora acerca do exercício literário, revelando que a feitura do diário nada tem a ver com a concepção reducionista que a entende como depoimento ingênuo destituído de reflexão. A palavra ideal, escolhida para caracterizar o exercício de sua escrita, pode ser entendida como lugar de utopia em que o sujeito projeta sua existência, figurando em outros momentos:

Eu deixei o leito as 3 da manhã porque quando a gente perde o sono começa a pensar nas misérias que nos rodeia. (…) Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades. (…) É preciso criar esse ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela. (JESUS, 1960, pg.52)

Os fragmentos revelam a força poética e o caráter literário de sua escrita, mostrando que seus diários ultrapassam os limites simbólicos dos quartos de despejo, erguendo – através da materialidade do texto – os castelos imaginários que o discurso hegemônico tenta sequestrar.

A concretude do arco-íris

Em Carolina, o elemento fantástico aparece atrelado à concretude da vida, na medida em que descortina frestas onde se vislumbra outros possíveis, como na passagem em que a autora relata uma fantasia de infância:

Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para defender o Brasil porque eu lia a História do Brasil e ficava sabendo que existia guerra. Só lia os nomes masculinos como defensor da pátria. Então eu dizia para a minha mãe:

– Porque a senhora não faz eu virar homem?

Ela dizia:

– Se você passar por debaixo do arco-íris você vira homem.

Quando o arco-íris surgia eu ia correndo na sua direção. Mas o arco-íris estava sempre distanciando. Igual os políticos distantes do povo.

(JESUS, 1960, p.48)

Embora ainda sofra com o preconceito e a arrogância de uma intelectualidade que insiste em não enxergar o caráter literário de sua obra, o texto de Carolina continua a erguer castelos imaginários à revelia dos quartos de despejo, expressando a delicadeza sem plumas de uma estética da “secura”.

Referências bibiográficas:

 

EVARISTO, Conceição. Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade. SCRIPTA, Belo Horizonte, v. 13, n. 25, p. 17-31, 2º sem. 2009
FERREIRA, Amanda Crispim. Escrevivências, as lembranças afrofemininas como um lugar da memória afro-brasileira: Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Geni Guimarães. Dissertação. Belo Horizonte Faculdade de Letras da UFMG Programa de Pós-Graduação em Letras – Pós-Lit 2013

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo. Diário de uma Favelada. 1ª ed, São Paulo: Francisco Alves, 1960.

MOSER, Benjamin. Clarice, uma biografia. Trad. José Geraldo Couto. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

<http://www.revistaforum.com.br/2017/04/20/professor-branco-diz-que-obra-de-carolina-maria-de-jesus-nao-e-literatura-e-provoca-embate-no-rj/ > – acessado em: 30 de abril de 2017

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